# Compreendo inglês, mas bloqueio quando falo: como ganhar confiança no trabalho

“Compreendo inglês, mas não consigo falar.”

Esta é provavelmente uma das frases que mais ouço de profissionais que chegam às nossas aulas. E o interessante é que, na maioria das vezes, não estamos a falar de pessoas que não falam inglês. Muito pelo contrário. Trabalho todos os dias com profissionais incríveis que estudaram inglês por anos, frequentaram escolas de idiomas, fizeram cursos, aprenderam gramática e investiram bastante dinheiro. Mas, mais importante do que o dinheiro, investiram tempo. Às vezes estamos a falar de cinco, dez ou mais anos de contacto com a língua.

Por isso, quando alguém me diz “eu compreendo, mas não consigo falar”, normalmente não penso que temos de começar do zero. Penso: ótimo, já temos uma base. Agora precisamos de descobrir como tirar esse inglês de dentro da cabeça e começar a usá-lo.

What you don't use, you lose

Eu acredito muito numa ideia simples: what you don't use, you lose. Podemos estudar uma língua durante anos, mas se não a utilizarmos regularmente, principalmente para falar, começamos a perder agilidade.

É um pouco como voltar a praticar um desporto depois de muito tempo. Sabemos o que fazer, mas no início tudo parece mais lento e estranho. Com o inglês acontece algo parecido. A palavra está lá, sabemos que a conhecemos, mas demora demasiado tempo a aparecer. Então começamos a pensar, traduzir, corrigir mentalmente a frase... e a conversa já avançou.

É por isso que gosto tanto das primeiras aulas com um aluno que tem este problema. Muitas vezes bastam algumas aulas para começarmos a ver uma mudança. O aluno percebe que consegue responder, depois conta uma história e, por fim, começa a fazer perguntas. Aos poucos, parece que alguém acionou um interruptor.

Não ensinámos inglês do zero em duas ou três aulas. O inglês já estava lá.

O verdadeiro medo muitas vezes é: “E se eu não compreender?”

Curiosamente, muitos profissionais que conheço não têm tanto medo de falar. O que realmente os assusta é o que acontece depois de falarem.

Imaginemos uma reunião. Preparou o que queria dizer, faz a pergunta em inglês e corre tudo bem. Mas a outra pessoa responde rapidamente, tem um sotaque diferente ou usa uma expressão que não conhece. Não percebeu.

E agora?

Para algumas pessoas, dizer “Sorry, I didn't understand” é quase impensável. Sentem que estão a admitir que o seu inglês não é suficientemente bom. Ficam nervosas, a ansiedade entra e, naquele momento, parece que o cérebro simplesmente se desliga. O problema já não é apenas linguístico; as emoções tomaram conta da situação.

Uma parte importante do nosso trabalho é normalizar esses momentos. Não compreender tudo é normal. Pedir para repetir também é normal. Podemos dizer “Could you say that again?”, “What do you mean by...?” ou “Just to make sure I understood correctly...” e continuar a conversa.

Isso não é mau inglês. Isso é comunicação.

Também precisamos de falar sobre vergonha

Há outro tema que aparece muito nas minhas aulas e que não costuma aparecer nos livros de inglês: vergonha.

Costumo brincar com os meus alunos sobre os turistas americanos que viajam para países de língua espanhola. Muitos chegam com um espanhol bastante limitado e simplesmente falam. Usam as palavras que conhecem, inventam outras, fazem gestos e continuam. Não estão preocupados em construir a frase perfeita antes de pedir um café.

Claro que estou a generalizar um pouco, mas uso o exemplo porque nos ajuda a falar sobre algo importante. Muitos dos meus alunos sabem muito mais inglês do que acreditam, mas sentem vergonha de mostrar um inglês que não seja perfeito.

Quando conseguimos reconhecer essa vergonha, podemos começar a trabalhar nela. Podemos até rir dela. E, pouco a pouco, deixa de controlar a conversa.

O seu sotaque é como o seu nariz

Depois temos o sotaque. Este preocupa muita gente.

Eu costumo dizer aos meus alunos que o seu sotaque é como o seu nariz. Sim, aquela coisa no meio da sua cara. Faz parte de si. Não precisamos de passar a vida a tentar escondê-lo.

Eu sou colombiano. O meu inglês tem uma história, tal como o inglês de um português, de um brasileiro, de um francês ou de um alemão tem a sua. O objetivo não deveria ser apagar completamente essa identidade para tentar soar como outra pessoa. O importante é sermos compreendidos e conseguirmos nos comunicar com confiança.

Por isso, prefiro trabalhar a fluência. Uma das coisas que praticamos é aprender a ler e falar em grupos de palavras, em vez de processar tudo palavra por palavra. Quando começamos a reconhecer esses grupos, o inglês ganha ritmo e começa a fluir de uma forma muito mais natural.

“Eu sei o inglês na minha cabeça”

Quando um aluno me diz “eu sei o inglês na minha cabeça, mas não consigo falar”, para mim isso é uma boa base. Há muito com que trabalhar.

O nosso trabalho passa, então, por colocar essa pessoa em situações em que realmente precisa usar a língua. Não é preciso começar com uma apresentação de 30 minutos para a direção da empresa. Podemos começar com um tema social, uma situação profissional simples, uma pergunta ou uma conversa sobre algo que aconteceu durante a semana.

Cada vez que o aluno consegue expressar uma ideia, mesmo que não seja perfeita, acontece algo importante: ele ganha evidência de que consegue falar. E depois fazemos outra pergunta, mudamos o contexto e continuamos.

Gosto de pensar que estamos a tirar a ferrugem do inglês. O conhecimento está lá, mas precisamos de voltar a pôr a máquina a funcionar.

“Mas eu só tenho uma hora por semana”

Aqui há algo sobre a Go English Live que algumas pessoas acham curioso: muitos dos nossos alunos têm apenas uma hora de aula por semana.

Então como é que alguém pode melhorar o inglês estudando apenas uma hora?

Bem... na realidade, não é apenas uma hora.

Antes da aula, o aluno tem acesso ao conteúdo no nosso LMS. Pode ver o vídeo de introdução, ouvir o podcast da unidade e trabalhar o vocabulário. Não precisa de passar horas a estudar, mas chega à aula sabendo qual é o tema e já tendo algum contacto com a linguagem que vamos utilizar.

Depois vem a parte que, para mim, faz toda a diferença: usamos esse conteúdo na aula. O vocabulário que preparou aparece na conversa. As ideias do vídeo aparecem nas perguntas. O inglês deixa de ser algo que o aluno estudou ontem e passa a ser algo de que precisa hoje para se comunicar.

É isso que queremos.

O novo homework: activation

Também gosto de desafiar a ideia tradicional de 'homework'. Um profissional que já trabalhou oito ou dez horas provavelmente não está entusiasmado em receber três páginas de exercícios de gramática para fazer à noite.

Por isso falamos muito mais sobre activation.

O primeiro passo pode ser ridiculamente simples: mude o telemóvel para inglês. Só isso já coloca pequenas doses da língua na sua rotina todos os dias. Depois, escolha um podcast sobre algo de que realmente gosta. Não precisa de ser um “English learning podcast”. Pode ser sobre negócios, tecnologia, padel, futebol, marketing, viagens ou qualquer outro tema que fizesse parte da sua vida de qualquer maneira.

Escolha um momento da semana e ouça-o. Não transforme tudo num exercício. Não pare a cada 30 segundos para procurar uma palavra. Ouça, tente compreender e continue.

Queremos que o inglês comece a fazer parte da sua vida, em vez de existir apenas na hora em que tem aula.

Um aluno que me fez lembrar por que fazemos isto

Tenho um aluno que sempre teve muita dificuldade com a pronúncia. Ele compreendia inglês, tinha conhecimento e conseguia participar, mas algumas palavras eram realmente difíceis para ele. Às vezes olhava para uma palavra que conhecia e a sua pronúncia natural saía tão diferente que isso acabava por deixá-lo stressado.

Não tentámos “corrigir o inglês” dele todo de uma só vez. Fomos trabalhando aos poucos, um tema social de cada vez, com situações reais e inglês que ele realmente podia usar. Algumas coisas melhoraram rapidamente; outras demoraram muito mais. E está tudo bem.

O que mais me interessa é o que acontece quando uma pessoa que antes estava constantemente preocupada com a forma como falava começa simplesmente a falar.

É difícil explicar essa sensação como professor. Ainda hoje fico arrepiado quando vejo um aluno que chegou inseguro começar a conversar, desenvolver uma ideia, fazer uma piada ou defender a sua opinião em inglês sem ter de pensar constantemente em cada palavra.

Porque aí percebemos que algo mudou.

Talvez não precise aprender mais inglês. Talvez precise usar o inglês que já sabe.

Se compreende inglês, mas trava ao falar, não assuma automaticamente que precisa de outro curso cheio de gramática, listas de palavras e exercícios.

Talvez precise de prática. Talvez precise aprender a lidar com aquele momento em que não compreende algo. Talvez precise de aceitar o seu sotaque. Ou talvez precise simplesmente de um espaço onde possa falar, errar, tentar outra vez e perceber que nada de terrível acontece quando uma frase não sai perfeita.

A confiança não surge magicamente antes de começarmos a falar. Na minha experiência, acontece exatamente ao contrário: falamos, percebemos que conseguimos e, pouco a pouco, ganhamos confiança.

E às vezes o inglês que pensamos ter perdido estava lá o tempo todo. Só estava um pouco enferrujado.